Mateus Starling

"Mateus é um guitarrista muito promissor que graciosamente toca sem ter que soar como outras pessoas."

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Existe nota evitada?

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O ouvido musical é moldado pelo contexto cultural, social e a exposição a estilos musicais diferentes (a internet tem sido uma grande ferramenta para quebrar essas barreiras estilísticas-culturais).

O acorde de mão cheia no piano, aquele que simplesmente colocamos os nossos 10 dedos em notas aleatórias, pode ser o som mais horroroso para determinado ouvido ou para determinado momento, mas pode ser o som mais desejável para outro contexto, seja na composição de uma trilha sonora de cinema, alias, a quase 1 século as sonoridades dodecafônicas* (leia sobre Arnold Shoenberg) têm sido exploradas em muitos contextos cujo resultado final do trabalho possa ser definido como “belo”, ou na improvisação de um contexto mais livre. Vide músicos como Hermeto Pascoal, Cecil Taylor, Herbie Hancock e etc.

O próprio contexto cinematográfico esclarece como nossos ouvidos aceitam determinadas sonoridades “feias” se associadas a determinadas imagens estáticas ou em movimento. A técnica de composição dodecafônica é usada praticamente em quase todos os filmes de nossa era e é matéria obrigatória para quem estuda trilha sonora numa faculdade como a Berklee por exemplo.

Quando estudei harmonia e improvisação pela primeira vez foi me ensinado que na escala maior o quarto grau é evitado e daí essa palavra evitada começou a aparecer cada dia com mais frequencia. A ideia é a quarta “luta” com a terça num intervalo de semi tom. Portanto, se um acorde possui a terça, em tese, não poderia possuir a quarta em sua estrutura, portanto para aceitarmos essa premissa voltamos à questão do contexto e da estética.

A melhor prova que podemos ter é a prática. Qual a sensação que temos quando tocamos a terça e quarta de um acorde maior ao mesmo tempo? Pode soar horrível num contexto, mas pode ser exatamente o que você procura em outro. Esse conhecimento tradicional é importante, porque em tese é a regra vigente no mundo musical ocidental, portanto, se queremos quebrar regras precisamos saber quais são elas, mas existe aquele lindo ditado: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez.”

Foi importante saber disso tudo porque eu experimentei essas sonoridades e constatei que em determinados contextos elas são realmente indesejáveis. Porém, ao longo do tempo essas sonoridades indesejadas foram extremamente importantes para que muitos músicos se comunicassem através de composições e improvisos e hoje se tornarem referencias para nós. A grande questão é aquilo que se torna padrão musical para cada um. Para a população leiga é o que toca nas rádios ou na Tv e para nós músicos o que é?

Há pouco tempo atrás houve um concurso musical no youtube onde o participante deveria improvisar a vontade sobre uma base onde havia uma bateria estilo rock e um baixo pedal tocando simplesmente o bordão E (Mi).

Esse tipo de contexto de improvisação é ótimo para mostrarmos como o nosso ouvido é facilmente manipulável, pois numa situação dessas qual seria a tonalidade? Quais seriam as notas evitadas? Que escala usar?

Obviamente você pode pensar em:

E iônico, E dórico, E frigio, E lídio, E mixolídio, E eólio, E lócrio. Você também pode pensar que esse Mi é o primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto ou sexto grau do campo harmônico da escala menor melódica, menor harmônica ou maior harmônica. Podemos pensar também que esse bordão é uma inversão de um acorde maior, menor, alterado e etc. Dessa maneira qual a conclusão óbvia que temos?

Qualquer nota dentro desse contexto teria uma explicação teórica e poderia ser usada. E na prática como fica?

Se você toca sobre o bordão Mi e pensa que o mesmo é iônico você estabeleceu uma sonoridade. Essa palavra “sonoridade” é muito importante porque muitas pessoas se algemam pensando: “Bem, agora é Mi iônico e eu só posso tocar as 7 notas desse modo.” Mas com um contexto que te dá tanta liberdade por que você precisa pensar em escala ou modo?

A grande questão é que a maioria das pessoas se condicionam a tocar APENAS tendo que pensar em determinado modo, tonalidade ou escala. Eu coloquei (APENAS) em destaque porque é obvio que você deve aprender a tocar pensando em modo ou escala, saber o que usar sobre determinado acorde, porém, uma coisa não afasta a outra.

Um bom passo para começar a experimentar novas sonoridades somando aquilo que você já tem é pensar em algo tipo:

Eu vou pensar nesse Mi como dórico, mas vou convidar outras notas a estarem participando desse contexto. Portanto, a sonoridade será menor, mas vou acrescentar a sétima maior (ela é derivado da escala menor melódica), sem excluir a sétima menor. Agora a sétima maior também pode aparecer como uma nova cor. Que tal acrescentar a nota #11? Essa nota já é comumente usada como nota de passagem (blue note) mas por que não vê-la também como uma nota de tensão, onde você pode estacionar sobre a mesma e trazer uma nova cor para o seu improviso?

Tenho 2 músicas onde a melodia da mesma forma construídas sobre essa ideia, escala menor dórica + 7M e #11 como notas adicionais e boas para se estacionar. (Guerreiro do cd Kairos e 777 do cd Free Fusion)

Existe também a possibilidade de você não pensar em escala e simplesmente tocar pensando em intervalos, tocar de forma livre sem remeter a tonalidade, o que no fim acaba sendo muito mais difícil para a maioria das pessoas que estão acostumadas a pensar em tonalidade. Aliás, por mais que o seu contexto musical não te proporcione muita liberdade acho interessante que qualquer improvisador gaste um tempo praticando livremente o seu instrumento sem pensar em tonalidade.

Esse assunto é enorme, então continua numa próxima.

Deus abençoe a todos.

 

 

* Dodecafonismo: As 12 notas da escala cromática são tratadas como equivalentes, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica. Para se repetir 1 nota é necessário que se toque antes as outras 11 notas da escala cromática. As notas são organizadas em grupos de doze notas denominados séries as quais podem ser usadas de quatro diferentes maneiras:

1) série original

2) série retrógrada

3) série invertida

4) retrógrado da inversão

 

Como saber o tom da musica?

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Vou tentar ser o mais objetivo e organizado num assunto tão amplo.

Quando falamos de música radiofônica em geral (pop,rock e etc.) onde a maioria das músicas são compostas num contexto tonal e com pouca modulação, podemos dizer que em 90% dos casos o tom é entregue logo no primeiro acorde da melodia da música.

Nesse contexto musical podemos dizer que a música é maior ou menor. Na maioria dos casos, quando a música é maior, ela se refere ao primeiro grau do campo harmônico maior.

Maior:

Veja no Ex1 o campo harmônico maior:

OBS: Acima os graus foram escritos em tétrades (acordes com 4 notas) todos com a sétima, porém, é muito comum vermos as progressões formadas por tríades, ou seja, sem acréscimo da quarta nota, que normalmente é a sétima ou sexta.

A música começa com o acorde do primeiro grau e depois ela pode seguir outros caminhos dentro do campo harmônico algo do tipo:

Algumas vezes também vemos a música começar por um acorde maior, mas ela pode começar pelo quarto grau ou pelo quinto grau, o que é um pouco menos comum. Dessa maneira é importante conhecer o campo harmônico maior para poder matar essa charada.

Só existem 3 acordes maiores no campo harmônico maior que estão localizados no primeiro, quarto e quinto grau:

Portanto, você precisa ver o lugar que cada um desses acordes maiores ocupa e, dessa maneira, você automaticamente mata a charada da tonalidade.

No exemplo acima o Tom é C, mas o primeiro acorde é o de quarto grau. Quando possuímos uma progressão com 3 acordes maiores sendo que 2 deles estão separadas por 1 tom (No caso F e G), já temos 99% de chance de que esses acordes sejam o quarto e quinto grau da progressão. Só não será dessa maneira se a música usar algum mecanismo de modulação ou de empréstimo modal.

Menor:

Quando encontramos uma música cujo primeiro acorde seja menor, na maioria dos casos o tom da música será menor eólio, ou seja, é o sexto grau do campo harmônico maior. Veja abaixo.

Dessa maneira contamos o sexto grau agora sendo o primeiro grau menor, mas a referencia dos acordes é a mesma, só muda o ponto de vista ou ponto de análise do mesmo. Se o tom for Am, vemos que o Am em questão é o relativo do acorde de C maior (primeiro grau)

Veja a progressão abaixo:

Percebemos que os 3 acordes maiores continuam na progressão, porém o primeiro acorde é o acorde menor. Vemos, também, que o acorde F e o acorde G estão da mesma maneira separados por 1 tom mesmo não aparecendo de maneira sequencial

Também vemos músicas começando pelo segundo grau menor, mas isso não quer dizer que a música seja menor, normalmente nesses casos o acorde menor precede o quinto grau que prepara para o primeiro grau maior, como por exemplo, na música Autumn Leaves. Esse tipo de progressão também aparece na música pop, porém muito mais no jazz e na música brasileira.

Continua em breve

Mateus Starling – www.mateusstarling.com.br (Mais de 50 video aulas diferentes)

 

Vale a pena memorizar licks e frases prontas?

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Aos 14 anos de idade me matriculei numa academia de musculação. Eu era muito magro e queria dar um upgrade na minha carcaça de frango. Fiz a tradicional avaliação, mediram o tamanho do meu braço, tórax, perna e etc. O resultado era de que eu precisava ganhar massa muscular e levantar bastante peso para alcançar o objetivo.

Levei a sério a rotina da academia, mas o tempo se passava e eu continuava o mais franguinho do recinto. Olhava para o lado e via uns caras gigantes e então descobri que muitos desses gigantões assim o eram porque faziam uso de esteroides anabolizantes.

O esteroide da um resultado rápido, ganho de massa muscular em pouco tempo, mas em longo prazo devasta a saúde e cria dependência, pois quem interrompe o uso do mesmo perde a qualidade muscular que adquiriu.

Quando começamos a tocar existe um caminho mais rápido para solar que é o de memorizar licks e frases prontas e construir solos como uma colcha de retalhos, emendando frases prontas.

O pessoal aqui do Rio de Janeiro até brinca a respeito de um músico que lançou um livro de frases que o próprio usa e então o pessoal, que já estudou o livro, fica na plateia falando no ouvido do outro: “Olha lá, frase 15, agora frase 26, emendou na frase 7”.

Não me entenda mal, existe sentido em se aprender frases de outros músicos e de até criar suas próprias frases, mas o propósito nesse conceito de estudo não é o de criar um atalho ou de um musico marombado, mas sim de entender e assimilar o conceito por trás das frases, entender como um músico encara determinada progressão, como ele desenvolve os motivos e as ideias ao longo da harmonia ou como ele ignora a harmonia em prol de uma ideia, enfim a idéia é: “Vamos tentar entender como o mestre pensa”.

Muitas pessoas memorizam um solo de determinado musico e o executam perfeitamente, sem na verdade entender a relação daquele solo com a estrutura da musica, forma, harmonia e melodia.

Vamos entender o processo e não memorizar a formula final. Não é assim que um bom professor de matemática ou física nos ensina? Quando entendemos, por exemplo, a construção dos campos harmônicos, mesmo que tenhamos esquecido os graus nós podemos parar e por alguns segundos montar em nossas cabeças o campo harmônico baseado apenas na escala ao invés de memorizar todos os campos harmônicos de todas as escalas sem o mínimo propósito de aplica-los. A mesma coisa acontece com os modos, muitas pessoas vem os modos como escala tal começando de tal nota, mas na prática não conseguem ouvir a nota que caracteriza o modo.

O que as pessoas precisam entender quando começam a estudar improvisação é que “improvisação é improvisar mesmo” como diz Hermeto Pascoal. Enfim, você não estuda o que você vai tocar, mas você estuda para estar preparado para o que estará te esperando.

Em tempos onde se copiam monografias da internet também é possível impressionar com um solo estilo “copy and paste”, postar o vídeo no youtube e receber muitos tapinhas nas costas. Tenho certeza que isso é suficiente para muitas pessoas, mas se não é para você continuemos.

A tecnologia acabou criando um tipo de “solador marombado” não podemos chamar esse cara de improvisador porque na verdade ele não aprendeu a improvisar, pois quem aprende a improvisar esta apto a se deparar com o inesperado, com o novo, com o momento que surge e logo passa.

O que é mais interessante? Ter 18 anos de idade, um corpo bonito bombado e chegar as 40 anos todo arrebentado ou aos 18 anos ainda estar construindo o seu corpo para que quando você tenha os seus 40 anos você, além de um belo corpo, esteja também esbanjando saúde?

Portanto, se você realmente deseja aprender a arte de improvisar e de acompanhar um improvisador você precisa estudar os conceitos e as ferramentas, precisa ouvir o estilo porque grande parte desse processo também é referência. Precisa estudar e ter a humildade da espera, pois grandes resultados vem com o tempo. Muitas pessoas passam a vida toda estudando de forma escrava no estilo “copy and paste” e um dia então decidem voltar a estudar de maneira produtiva quando na verdade poderiam ter feito isso desde o principio. Nunca é tarde para abrir mão de hábitos ruins.

Boa reflexão e bons estudos. Deus te abençoe.

Mateus Starling

 

Te convido a conhecer o meu site com mais de 50 video aulas diferentes:

www.mateusstarling.com.br

 

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