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O ouvido musical é moldado pelo contexto cultural, social e a exposição a estilos musicais diferentes (a internet tem sido uma grande ferramenta para quebrar essas barreiras estilísticas-culturais).
O acorde de mão cheia no piano, aquele que simplesmente colocamos os nossos 10 dedos em notas aleatórias, pode ser o som mais horroroso para determinado ouvido ou para determinado momento, mas pode ser o som mais desejável para outro contexto, seja na composição de uma trilha sonora de cinema, alias, a quase 1 século as sonoridades dodecafônicas* (leia sobre Arnold Shoenberg) têm sido exploradas em muitos contextos cujo resultado final do trabalho possa ser definido como “belo”, ou na improvisação de um contexto mais livre. Vide músicos como Hermeto Pascoal, Cecil Taylor, Herbie Hancock e etc.
O próprio contexto cinematográfico esclarece como nossos ouvidos aceitam determinadas sonoridades “feias” se associadas a determinadas imagens estáticas ou em movimento. A técnica de composição dodecafônica é usada praticamente em quase todos os filmes de nossa era e é matéria obrigatória para quem estuda trilha sonora numa faculdade como a Berklee por exemplo.
Quando estudei harmonia e improvisação pela primeira vez foi me ensinado que na escala maior o quarto grau é evitado e daí essa palavra evitada começou a aparecer cada dia com mais frequencia. A ideia é a quarta “luta” com a terça num intervalo de semi tom. Portanto, se um acorde possui a terça, em tese, não poderia possuir a quarta em sua estrutura, portanto para aceitarmos essa premissa voltamos à questão do contexto e da estética.
A melhor prova que podemos ter é a prática. Qual a sensação que temos quando tocamos a terça e quarta de um acorde maior ao mesmo tempo? Pode soar horrível num contexto, mas pode ser exatamente o que você procura em outro. Esse conhecimento tradicional é importante, porque em tese é a regra vigente no mundo musical ocidental, portanto, se queremos quebrar regras precisamos saber quais são elas, mas existe aquele lindo ditado: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez.”
Foi importante saber disso tudo porque eu experimentei essas sonoridades e constatei que em determinados contextos elas são realmente indesejáveis. Porém, ao longo do tempo essas sonoridades indesejadas foram extremamente importantes para que muitos músicos se comunicassem através de composições e improvisos e hoje se tornarem referencias para nós. A grande questão é aquilo que se torna padrão musical para cada um. Para a população leiga é o que toca nas rádios ou na Tv e para nós músicos o que é?
Há pouco tempo atrás houve um concurso musical no youtube onde o participante deveria improvisar a vontade sobre uma base onde havia uma bateria estilo rock e um baixo pedal tocando simplesmente o bordão E (Mi).
Esse tipo de contexto de improvisação é ótimo para mostrarmos como o nosso ouvido é facilmente manipulável, pois numa situação dessas qual seria a tonalidade? Quais seriam as notas evitadas? Que escala usar?
Obviamente você pode pensar em:
E iônico, E dórico, E frigio, E lídio, E mixolídio, E eólio, E lócrio. Você também pode pensar que esse Mi é o primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto ou sexto grau do campo harmônico da escala menor melódica, menor harmônica ou maior harmônica. Podemos pensar também que esse bordão é uma inversão de um acorde maior, menor, alterado e etc. Dessa maneira qual a conclusão óbvia que temos?
Qualquer nota dentro desse contexto teria uma explicação teórica e poderia ser usada. E na prática como fica?
Se você toca sobre o bordão Mi e pensa que o mesmo é iônico você estabeleceu uma sonoridade. Essa palavra “sonoridade” é muito importante porque muitas pessoas se algemam pensando: “Bem, agora é Mi iônico e eu só posso tocar as 7 notas desse modo.” Mas com um contexto que te dá tanta liberdade por que você precisa pensar em escala ou modo?
A grande questão é que a maioria das pessoas se condicionam a tocar APENAS tendo que pensar em determinado modo, tonalidade ou escala. Eu coloquei (APENAS) em destaque porque é obvio que você deve aprender a tocar pensando em modo ou escala, saber o que usar sobre determinado acorde, porém, uma coisa não afasta a outra.
Um bom passo para começar a experimentar novas sonoridades somando aquilo que você já tem é pensar em algo tipo:
Eu vou pensar nesse Mi como dórico, mas vou convidar outras notas a estarem participando desse contexto. Portanto, a sonoridade será menor, mas vou acrescentar a sétima maior (ela é derivado da escala menor melódica), sem excluir a sétima menor. Agora a sétima maior também pode aparecer como uma nova cor. Que tal acrescentar a nota #11? Essa nota já é comumente usada como nota de passagem (blue note) mas por que não vê-la também como uma nota de tensão, onde você pode estacionar sobre a mesma e trazer uma nova cor para o seu improviso?
Tenho 2 músicas onde a melodia da mesma forma construídas sobre essa ideia, escala menor dórica + 7M e #11 como notas adicionais e boas para se estacionar. (Guerreiro do cd Kairos e 777 do cd Free Fusion)
Existe também a possibilidade de você não pensar em escala e simplesmente tocar pensando em intervalos, tocar de forma livre sem remeter a tonalidade, o que no fim acaba sendo muito mais difícil para a maioria das pessoas que estão acostumadas a pensar em tonalidade. Aliás, por mais que o seu contexto musical não te proporcione muita liberdade acho interessante que qualquer improvisador gaste um tempo praticando livremente o seu instrumento sem pensar em tonalidade.
Esse assunto é enorme, então continua numa próxima.
Deus abençoe a todos.
* Dodecafonismo: As 12 notas da escala cromática são tratadas como equivalentes, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica. Para se repetir 1 nota é necessário que se toque antes as outras 11 notas da escala cromática. As notas são organizadas em grupos de doze notas denominados séries as quais podem ser usadas de quatro diferentes maneiras:
1) série original
2) série retrógrada
3) série invertida
4) retrógrado da inversão |