"Mateus é um guitarrista muito promissor que graciosamente toca sem ter que soar como outras pessoas."
All about jazz - USA

Comecei a tocar com 12 anos de idade e como é de praxe nessa fase das nossas vidas fazemos um monte de coisas porque no fim das contas não fazemos a mínima idéia do que verdadeiramente curtimos. É uma fase de experimentações. Nessa época eu surfava, jogava basquete, vôlei e fazia karatê. Depois fiz capoeira, jiu jitsu, boxe tailandês e enfim hoje pratico boxe.
Obviamente não me tornei profissional em nada disso a não ser na guitarra, mas como agora o MMA esta em voga e quero usar essa figura e fazer uma analogia para falar do improviso na musica.
Eu faço boxe numa academia com vários cascas grossas do MMA, entre eles 7 atletas que lutam no UFC, um deles é o campeão José Aldo.
Eu acompanho o UFC desde o numero 1 quando as lutas não tinham tempo para terminar, não tinham luvas, poucas regras, enfim, rolava muito improviso na situação.
Vamos ao que interessa e dessa maneira é possível chegarmos também a uma conclusão. O quanto do improviso musical é realmente improvisado!
Certa vez ouvi o Jose Aldo dizer que, na época que ele ainda morava na academia, precisava melhorar os chutes e o professor pediu para que ele desse mil chutes lateral por dia no saco.
Há pouco tempo atrás cheguei à porta da academia (o local de treino de luta é no terceiro andar) e ouvia o barulho do chute do Aldo na borracha da manopla. É um barulho que você não ouve vindo de nenhum outro lutador, é preciso e forte e sabe por quê? Mil chutes no saco por alguns anos.
O lutador de MMA treina várias combinações. Jeb, direto e chute lateral. Jeb, direto, esquiva, esquiva e cruzado. Enfim, são inúmeras combinações.
Tive um professor na Berklee que me passou 12 tipos de cromáticos e disse que eu tinha 2 meses para pega-los em todos os tons, 5 regiões e em todas as qualidades de arpejos, tríades e tétrades. E ele me perguntou: “Você acha muito trabalho para 2 meses? Pois Mike Stern pegou isso em 1 semana”.
Eu peguei um exercício com o mestre Matheny e isso é conhecido desde a época em que ele era professor da Berklee, que é o de tocar as escalas em ciclos de quartas usando apenas 1 corda. Eu engoli esse exercício por alguns meses e hoje vejo como me ajudaram.
Vamos ao que interessa.
Nós músicos treinamos como os atletas de MMA, treinamos coisas pequenas como um chute lateral (palhetada alternada, técnica de sweep, etc), treinamos coisas médias como combinações de socos e chutes (fraseado, escala, arpejos, etc). Preparamos-nos para a luta estudando o adversário (estudando repertorio, possibilidades para improvisação, acordes).
Quando um lutador sobe no ringue ele tem muitas idéias na cabeça dele, pode até tentar prever a luta, mas acima de tudo ele tem que estar aberto para improvisar. O lutador parte para cima com a expectativa de dar um jeb e um direto e fechar com um chute lateral na coxa (Lyoto Machida faz muito isso), mas quando ele joga um jeb o seu adversário responde com um golpe de encontro, então, nesse momento é preciso instantaneamente responder ao contra golpe que levou.
Subimos no palco para tocar aquela musica que estudamos. Estamos lá dando a canja e combinamos de tocar uma balada conhecida, mas ao invés de puxar em balada os caras puxam um swing médio de jazz e você nunca praticou a musica daquela maneira? Você faz o que? Pede para ir ao banheiro?
O lutador não tem essa opção e talvez você também não tenha, portanto você naquele momento precisa improvisar.
Mas então nada do que você estudou esta valendo?
Ai que entra o improvisador, pois na verdade tudo o que você estudou esta valendo.
O lutador precisa responder a um golpe assim como o improvisador precisa responder a banda. Ninguém sobe num ringue para lutar sozinho assim como num contexto de banda você não esta tocando com uma banda de surdos, os caras estão participando e criando com você naquele momento, mas se você estiver fechado para responder aos outros músicos não vai ser muito diferente daquele lutador que não esta preparado para responder aos golpes do adversário.
Tudo o que treinamos em nossas vidas esta disponível em algum lugar no nosso cérebro que podemos ativar ou não, tudo o que ouvimos de certa forma esta registrado como uma referencia para nós.
Então, o quanto do improviso é realmente espontâneo? Isso vai depender de cada individuo. Assim como os lutadores, muitos músicos desenvolvem uma maneira burocrática de tocar, usando licks e frases prontas ao invés de estarem abertos para coisas que só vão surgir naquele determinado momento musical. Muitos lutadores conseguem ser campeões lutando de forma burocrática assim como muitos músicos alcançam o estrelato tocando dessa maneira.
Cada vez que você sobe no palco para tocar você volta para casa pensando em coisas que precisa ajustar no seu treino, não é assim com o lutador, principalmente após 1 derrota?
Portanto, praticar os fundamentos e os conceitos vai te ajudar a usá-los sem precisar pensar, vão sair automaticamente por uma necessidade musical que você sente (isso é uma combinação do que você estudou e de suas referências sonoras) assim como um lutador experiente vai usar uma esquiva para se desviar de um direto (isso é resultado de um treino condicionado).
Somos aquilo que praticamos e ouvimos, mas não somos escravos desses elementos, apenas usamos essas ferramenta para nos adequar a situação real, no fim das contas lutar pode virar uma arte e a música pode virar uma luta, isso só vai depender de suas escolhas e dos caminhos que você escolher trilhar.
Deus abençoe a todos.
Mateus Starling
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