"Mateus é um guitarrista muito promissor que graciosamente toca sem ter que soar como outras pessoas."
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A minha inspiração para escrever esse artigo foram 2 saxofonistas, de um lado Chris Potter e de outro lado um saxofonista que, por questões óbvias, prefiro não revelar o nome.
Vejam os vídeos do Chris Potter tocando sozinho. Tem uma grande versão dele de 10 minutos tocando All The things you are e também Confirmation. Sempre que ele toca em clinicas ele toca sem banda, ao invés de, por exemplo, tocar sobre um playback. Isso é muito interessante porque um saxofonista não tem o approach de tocar acordes com a mão direita para indicar a progressão harmônica, portanto, é preciso um grande domínio para passar ao ouvinte a harmonia através do improviso e ao mesmo tempo não ficar refém de tocar acorde por acorde todo tempo, enfim, Chris Potter é um gigante nesse quesito.
Eu passo muitas horas do meu dia online, dando suporte para pessoas que adquirem o meu material, portanto, eu tenho muito tempo para ouvir música, principalmente no youtube. Não me lembro como cheguei a esse vídeo, mas o vídeo em questão é de um saxofonista, relativamente conhecido, gravando uma participação em algum cd onde ele tocava um solo sobre um playback dentro do estúdio.
O vídeo começa com o citado saxofonista tocando uma frase pré fabricada (sei disso porque ele usa a mesma frase em todos os takes), o solo vai desenrolando como uma colcha de retalhos com boas frases que se conectavam devidamente. De repente o saxofonista para e faz o sinal negativo com a cabeça do tipo: “falhei”.
O operador do estúdio solta o playback novamente, o saxofonista começa com a mesma frase, em um determinando momento ele muda o caminho do solo e para novamente e faz o mesmo sinal com a cabeça. Essa rotina se repete por uns 6 takes até que num determinando momento ele se deu por satisfeito.
O solo deve ter uns 15 segundos de duração e é bem possível que o saxofonista tenha chegado no estúdio e o produtor tenha dito: “Essa aqui é a base onde você vai colocar o seu solo”.
Cenário que eu imagino por parte do saxofonista. “Ok, preciso criar alguma coisa aqui rapidamente, uma frase de efeito para começar o solo, umas frases legais que eu sei que funcionam ou que impressionam e do meio pro final eu sustento umas notas para fechar o solo.”
A base do improviso é pop, nada muito complexo, com umas convenções acontecendo no meio do improviso (coisa de produtor gospel).
Entendam que não estou sentando no trono do julgamento, apenas fazendo uma análise sobre improvisação. Enfim, estou fazendo uma análise hipotética baseada no meu conhecimento a respeito do assunto, espero que vocês não me achem prepotente pelos meus comentários.
Por que o saxofonista nº 2 empacou e o Chris Potter nunca, nunca, nunca, nunca empaca?
Minha resposta hipotética.
O nº 2 vem de uma cultura de estudo equivocada sobre improvisação. Quando estudamos as ferramentas de improvisação sobre músicas, o correto é você tocar sobre toda a forma da música, sem parar, dessa maneira você vai desenvolver a habilidade de dar continuidade as suas idéias musicais. O pior erro de um improvisador é abandonar uma idéia, principalmente aquelas que ele acha que não funcionaram.
Quando improvisamos o raciocínio é na velocidade da luz, você não tem muito tempo para auto critica, você simplesmente precisa tocar. A grande questão é que muitas vezes as pessoas tocam algo indesejado e elas se decepcionam e querem recomeçar o solo. Isso em casa parece funcionar, mas a longo prazo é um mimo horroroso que o músico desenvolve, porque a grande realidade da vida musical é você poder resolver um improviso no take 1. Você pode gravar outros takes no estúdio, mas num show não terá essa oportunidade, mas mesmo no estúdio é interessante você registrar um take inteiro, depois outros takes e se decidir pelo melhor take.
Tenho 2 experiências recentes de gravações no estúdio. A primeira foi à participação que fiz no cd do baterista Pascoal Meireles. Entramos no estúdio tocando todos juntos, com naipe de metal e seção rítmica com piano, baixo, piano e eu. Eram 3 solistas, eu era o primeiro, logo depois Mauro Senise seguido de Nivaldo Ornelas. Gravei o solo tocando junto com a banda, dessa maneira todos reagiram ao meu improviso. Se eu quisesse gravar novamente o meu solo eu iria ter que tocar sobre o playback da gravação e dessa maneira perder todo o frescor dos músicos reagindo ao que eu criava espontaneamente. Iria ser um transtorno porque tinham outros solistas, coisas para refazer no naipe de metal, enfim, o meu improviso não era a prioridade do trabalho, portanto, o que eu fiz no único take foi o que ficou.
Há poucos meses gravei o meu cd Free fusion com o meu quarteto. Chegamos ao estúdio no sábado pela manhã e lá para as 11:00 da manhã começamos a gravar, em 5 horas de gravação tínhamos um cd com 7 músicas gravado. Gravamos 2 ou 3 takes de cada música e escolhemos o melhor take. Todos do quarteto improvisaram seus solos do começo ao fim de forma aberta e espontânea. Numa situação dessas você precisa estar apto a improvisar sem parar, principalmente se o trabalho não for seu e alguém esta pagando caro pelas horas no estúdio.
Isso não é um privilégio meu e de poucas pessoas, essa sempre foi à realidade do meio musical profissional até a chegada dos overdubbs (nada contra, muito pelo contrário, bem usado é uma maravilha).
Na minha opinião, os 2 melhores guitarristas de rock vivos são Van Hallen e Jeff Back, digo isso porque, alem da genialidade, eles são músicos capazes de realmente improvisar, de chegar num estúdio ou num show e dar o recado on the fly.
Infelizmente, ao longo dos anos, essa concepção de improvisação ficou mais difundida entre os jazzistas, a partir dos anos 70 alguns guitarristas difundiram a concepção do solo tecnicamente perfeito e foi uma cultura que ganhou força. Hoje muitas pessoas nasceram achando que esse é o melhor caminho para se criar um solo. Comecei a tocar guitarra nos anos 90 e também aprendi dessa forma, que é chegar em casa, sentar por algumas horas a frente de um playback e ir montando um patchwork.
Se isso faz sentido para você, proponho que estude improvisação dessa maneira. Pensar em desenvolver motivos melódicos e rítmicos. A partir de agora comece a perceber como os grandes improvisadores costumam desenvolver seu solos, as vezes pegando aquelas notas na trave e transformando-as em grandes idéias espontâneas.
Deus abençoe a todos.
Mateus Starling.
www.mateusstarling.com.br
Comentários
Fica com Deus e bons estudos.
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